Recebi uma carta anônima esses tempos, reclamando dos latidos insuportáveis de minha cachorra durante a madrugada. Eis a carta em questão:
"Prezado Vizinho,
Creio que todos gostamos de animais, no entanto, a vossa cachorra incomoda a vizinhança praticamente
durante toda a noite.
Parece-nos razoável que todos tenhamos respeito uns pelos outros e isso inclui o silencio após as 10:00 hs
da noite para que todos nós, trabalhadores que somos, possamos descansar a noite para enfrentar
o trabalho durante o dia.
É óbvio que a responsabilidade por nossos animais (que são irracionais) cabe a nós, para que possamos efetivamente exercer a nossa cidadania.
Certo de vosso respeito e atenção para com os semelhantes acreditamos que alguma medida seja
tomada para que possamos pelo menos à noite desfrutar de paz e silêncio."
É, pelo teor da carta, já pode-se notar que se trata de um cidadão careta com convicções pífias e sem manejo algum para tratar de um assunto tão simples de ser discutido. Respondi a carta e grudei o papel em meu portão, juntamente com um desenho, para chamar-lhe a atenção.
"Caro Senhor X,
Lamentamos pelos constantes latidos perturbadores. Já tomamos medidas em relação a nossa cachorra.
Entretanto, Preferiríamos que o senhor(a) tivesse se manifestado pessoalmente, para que o trato ocorresse de maneira informal. Iríamos levar em consideração a sua queixa da mesma forma.
Você iria ter exercido a tua cidadania de maneira bem mais louvável, já que mandar uma carta anônima em sua própria vizinhança soa, no mínimo, um tanto quanto incoerente.
Segue abaixo uma possível conclusão de nossa cachorra sobre o caso.
Sem rancores (até porque não sei de quem se trata o senhor(a)) e me identificando com prazer,
Daniel."
Minto. Devido a certas relutâncias familiares, não enviei a carta para ninguém, nem coloquei na porta de casa. Mas ainda imagino a cara de tacho do fulano se tivesse visto isso.